Porto Alegre tem um jeito muito próprio de viver o 2 de fevereiro: no mesmo dia, a cidade caminha com Nossa Senhora dos Navegantes e, bem ali nas águas do Guaíba, também saúda Iemanjá. Fé, história e identidade misturadas na rua e no coração
Uma herança dos casais açorianos
A devoção por Nossa Senhora dos Navegantes está nas raízes da fundação da cidade, uma herança dos casais açorianos que fundaram Porto Alegre. Foram eles os responsáveis por encomendar a estátua ao escultor João A. Fonseca Lapa de Portugal. Quando a imagem de Nossa Senhora chegou aqui, em 1871, foi realizada a primeira festa com procissão. O município tinha pouco mais de 40 mil habitantes na época.
Em 1910, a capela de Navegantes foi destruída por um grande incêndio e o escultor português fez então uma réplica da estátua que segue na igreja até hoje. A atual construção do santuário, que fica na Praça dos Navegantes, 12, foi inaugurada em 1913.

Muitos dias de celebração
Os festejos começam ainda em janeiro, com uma missa cedinho da manhã, no Santuário Nossa Senhora dos Navegantes. Depois, a santa é levada em uma carreata para o Cais do Porto. A imagem embarca no barco Cisne Branco e navega pelo Guaíba até a comunidade de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada. Nos dias seguintes, a imagem segue até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Centro Histórico, onde fica até a data da festa.

A imagem nos braços dos remadores
No dia 2 de fevereiro, os devotos saem cedinho da Igreja do Rosário, no Centro Histórico, e percorrem a pé os cerca de 6 quilômetros até o Santuário de Nossa Senhora dos Navegantes, na Zona Norte. Mas tem um detalhe que torna tudo mais bonito: quem carrega o barco com a imagem da santa são os remadores, figuras tradicionais que garantem que ela chegue segura ao seu destino.
Enquanto a caminhada acontece no asfalto, o Guaíba também fica povoado. A procissão marítima inclui embarcações turísticas e barcos particulares acompanhando a peregrinação pelas águas.

Sincretismo que nasceu da resistência
Nesse mesmo dia, seguidores de religiões de matriz africana celebram Iemanjá, a Rainha das Águas na tradição iorubá. Esse costume nasceu da necessidade na época da escravatura, quando os negros precisaram associar seus orixás aos santos católicos para continuar professando sua fé sem perseguição.
Desde 2023, uma lei municipal estabelece que o feriado de 2 de fevereiro celebra Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá em Porto Alegre. Hoje, essa mistura é parte da identidade de Porto Alegre, mostrando que, seja para a Santa ou para a Rainha das Águas, o respeito e a devoção caminham juntos.
