Custódio Joaquim de Almeida, mais conhecido como Príncipe Custódio, foi uma figura lendária da cultura afro-gaúcha do século XIX. Um homem que fez da fé e da sabedoria pontes entre mundos, unindo a comunidade negra em meio ao preconceito e à desigualdade de seu tempo.
Conta-se que o Príncipe Custódio nasceu no Benin, em meio a uma linhagem que segundo a tradição oral conta tinha sangue nobre, sendo herdeiro de tradições que cruzaram o oceano junto com ele. Ele levava o nome tribal de Osuanlele Okizi Erupê. Ainda jovem, veio parar em Porto Alegre. Desde então, sua presença atravessou gerações e virou memória viva na capital dos gaúchos.
Naquela Porto Alegre do século XIX, ainda dividida entre o conservadorismo e a mistura cultural, ele representava algo raro: a integração do sagrado e do cotidiano.

Custódio circulava entre ricos e pobres com a mesma naturalidade. Aconselhava políticos e autoridades, mas também era voz e apoio de quem vivia nas margens.
Príncipe Custódio e a força da ancestralidade negra no Sul do Brasil
Os estudiosos do Batuque afirmam que a religião, entre as mais praticadas hoje no Rio Grande do Sul, tem muito da estrutura e dos fundamentos que nasceram das orientações do Príncipe Custódio. Ele é considerado um dos grandes responsáveis por organizar e preservar práticas herdadas da cultura africana, ajudando a fortalecer uma identidade que resistiu ao tempo, à opressão e ao esquecimento.
Há quem afirme que foi o Príncipe Custódio quem realizou assentamentos poderosos em Porto Alegre — entre eles estaria o Bará do Mercado Público, bem no coração da cidade, e outro Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. No Batuque, o assentamento é um ritual sagrado: nele, a divindade é firmada em um ponto da terra, criando um elo entre o espaço físico e o mundo espiritual. Bará, para quem não conhece, é uma entidade guardiã, que abre caminhos e protege os espaços.
Príncipe Custódio viveu até os 104 anos, deixando um legado incrível para Porto Alegre. Tanto que a escritora gaúcha Hilda Simões Lopes deu vida à história desse mito no romance histórico “Maya”, lançado neste ano.
E agora o nome do Príncipe Custódio vai cruzar o país inteiro. Em 2026, ele será tema do desfile da Portela, uma das escolas mais tradicionais do carnaval do Rio.
“Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul e promovendo a certeza que essa influência negra foi estimulada e organizada pelo Príncipe do Bará, o Custódio. A realeza africana, é parte indispensável da construção da identidade do povo gaúcho. Uma história que mistura personagens, fatos históricos, ficção, lenda, sonhos, utopias e ressignificação do Brasil”, explicou o carnavalesco André Rodrigues, afirmando que o enredo propõe dar destaque à potência da ancestralidade negra que pulsa no Sul do Brasil.