A HORA DE ERICO
O teatro tem a propriedade de interpretar as histórias mais além dos fatos e a busca de significados transcende a concretude dos eventos.
Neste espetáculo teatral, Erico Veríssimo – maior escritor gaúcho de todos os tempos – autor da celebrada trilogia O Tempo e o Vento e várias outras obras, realiza um acerto de contas com seu pai, Sebastião Veríssimo, com quem teve uma relação tumultuada e ambivalente. A vida boêmia e apaixonada de Sebastião provocou efeitos silenciosos na vida de Erico. O encontro ficcional entre pai e filho, conduzido pela enigmática figura de Clarisse Lispector, desafia Erico como a Esfinge que questiona Édipo. Ou decifra-se ou se devora.
A Hora de Erico alude a hora da morte e a hora da verdade, mais além da hora da Estrela, proporcionando o encontro fatal de Érico com seus fantasmas e consigo mesmo, criando um espaço imaginário entre nuvens de memórias evanescentes, condensadas, fragmentadas que se organizam de forma desconcertante. Clarice Lispector conduz Erico Veríssimo em sua viagem para o inferno pessoal, como Beatriz na Divina Comédia e, como a esfinge de Édipo Rei, para juntos percorrem a travessia das sombras da caverna de Platão.
Baseado na profunda amizade que compartilharam Erico Veríssimo e Clarice Lispector, esses dois gigantes da literatura brasileira, que mantinham contato e correspondência. Com convivência fortalecida enquanto ambos moraram em Washington, DC, no mesmo período. Érico estava na cidade como representante da OEA, enquanto Clarice residia lá acompanhando o marido, que atuava como diplomata.
Em 1967, Clarice Lispector entrevistou Erico Veríssimo para a revista Manchete. Esse momento evidencia o respeito mútuo entre os dois escritores, marcado por uma troca de experiências e perspectivas sobre literatura. Além da amizade, existia entre eles uma relação marcada pela admiração e uma certa rivalidade, motivada pela singularidade de suas produções literárias. Cada um possuía um estilo próprio e inovador, o que gerava um ambiente de estímulo e desafio intelectual. Esse momento serve de ponto de partida do espetáculo.
Criado especialmente para a homenagem dos 120 anos do escritor, A Hora de Erico, teve sessão lotada, em novembro de 2025, no recém-inaugurado teatro Simões Lopes Neto, do complexo do Teatro São Pedro, em Porto Alegre. A peça teve grande repercussão devido a sua originalidade e ousadia, por provocar esse encontro crepuscular entre essas personalidades ímpares da literatura brasileira.
Foto: Fernando Pires
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Júlio Conte
Direção: Júlio Conte e Marcelo Restori
Elenco: Marcello Crawshaw, Karine Paz e Heitor Schmidt
Cenografia e Cenotecnia: Luiz Marasca
Iluminação: Veridiana Matias
Operação de Som: Manu Goulart
Trilha pesquisada: Marcelo Restori
Figurino: Patsy Cecato
Vídeo: Fredericco Restori
Fotos: Fernando Pires
Efeitos de som: Alex Ribeiro
Contra-regragem e assistência cenotécnica: Leonardo Schöpf
Produção executiva e divulgação: Gustavo Saul
Realização: Cômica Cultural
Apoio: Secretaria da Cultura de Porto Alegre
Classificação: 16 anos
Duração: 60 minutos