Tem um lugar no coração de Porto Alegre por onde a gente passa há quase cem anos sem se dar conta do tanto de história que ele carrega: o Viaduto Otávio Rocha, sobre a Avenida Borges de Medeiros. E agora ele tem um motivo a mais para tu parar e olhar com calma — em 2026, o viaduto entrou numa nova fase, com a restauração concluída, a circulação retomada e novos usos culturais, criativos e gastronômicos.
Primeiro, um mito que a gente faz questão de desfazer: o Viaduto Otávio Rocha não é, tecnicamente, uma obra art déco. Sua arquitetura é eclética, fruto de um período de transição. Mas ele foi construído bem no momento em que o art déco florescia mundo afora, e traz muito daquele espírito — simetria rigorosa, geometrização, arcos bem definidos e aquela integração entre estrutura e ornamento. Por isso ele é apontado como um dos marcos da introdução dessa linguagem em Porto Alegre. Em resumo: se tu quiser entender como o déco chegou à cidade, o viaduto é uma ótima primeira parada.
A história dele é a história da modernização da capital. Já em 1914 o primeiro plano diretor previa abrir uma via ligando o Centro a outras áreas. Em 1926, a abertura da Avenida Borges de Medeiros saiu do papel e exigiu uma solução e tanto: um viaduto para recompor a passagem da Rua Duque de Caxias sobre o novo corte no morro. A obra tomou forma entre 1928 e 1932 como o primeiro grande viaduto da cidade — e não foi barato: exigiu explosões no maciço de granito, a derrubada de dezenas de construções e uma verdadeira cirurgia urbana no coração de POA. O nome vem do intendente Otávio Rocha, e o projeto é dos engenheiros Manoel Barbosa Assumpção Itaqui e Duílio Bernardi.
Quando tu subir até o passeio superior, repare nas estátuas. As figuras femininas segurando tochas são obra de Alfred Adloff, escultor nascido em Düsseldorf e um dos grandes nomes da escultura pública da cidade (dele também são o Monumento ao Barão do Rio Branco, na Praça da Alfândega, e ornamentos do Paço dos Açorianos). As tochas não são enfeite à toa: remetem à luz, ao progresso e ao conhecimento, valores muito caros ao pensamento positivista que movia o urbanismo gaúcho da época.
Outra curiosidade que quase ninguém sabe: desde 2008, o espaço público no alto do viaduto se chama oficialmente “Passeio das Quatro Estações”. Cada uma das quatro escadarias leva o nome de uma estação do ano. Tombado como patrimônio histórico municipal em 1988, ele já tinha passado por uma restauração entre 2000 e 2001 — e agora, em 2026, ganha essa nova vida, com espaços entregues a permissionários e a promessa de virar ponto de encontro, cultura e gastronomia no Centro Histórico.
Nossa dica: reserve um fim de tarde, suba pelo Passeio das Quatro Estações e deixe o olhar percorrer os detalhes — os arcos, os ladrilhos, as tochas. Depois é só descer e emendar com um rolê pela Rua da Praia. Quase cem anos depois, o Otávio Rocha segue fazendo o que sempre fez: conectar a cidade e trazer luz para o Centro. E, convenhamos, fechar o dia por ali e seguir até a orla para ver o pôr do sol mais lindo do Brasil é um combo difícil de bater.
SERVIÇO:
O quê: Viaduto Otávio Rocha — marco histórico do Centro de POA, com o “Passeio das Quatro Estações” no nível superior e, desde 2026, novos espaços culturais e gastronômicos.
Quando: O ano todo; passeio livre. Programação e abertura dos espaços comerciais seguem em implantação.
Onde: Sobre a Avenida Borges de Medeiros, Centro Histórico, Porto Alegre.
Quanto: Gratuito (espaço público). Consumo nos estabelecimentos à parte.