Em um mundo bombardeado por imagens e pela manipulação constante da verdade, o que acontece quando não podemos mais confiar naquilo que vemos? Em seu novo espetáculo de Teatro de Testemunho, a Cia. Reverbo mergulha nas tensões da percepção contemporânea. A partir de relatos reais de pessoas com deficiência visual, a obra investiga as fraturas invisíveis e os pontos cegos nos conflitos humanos. Ao tensionar a relação entre o visível e o oculto, a montagem subverte o uso da audiodescrição, transformando o recurso de acessibilidade no motor poético e dramatúrgico da cena. O resultado é uma experiência cênica que nos desafia a confrontar tudo aquilo que, por conveniência, escolhemos não enxergar.
Duração do espetáculo: 90 minutos
Classificação etária: 12 anos
Ficha Técnica
Produção: Cia. Reverbo
Direção e dramaturgia: Clóvis Massa
Elenco: Letícia Schwartz, Rafael Braz, Rodrigo Teixeira
Dramaturgismo: Clóvis Massa, Letícia Schwartz, Rafael Braz, Rodrigo Teixeira
Cenografia: Rodrigo Shalako
Desenho de Luz: Bathista Freire
Figurino: Thais Diedrich e Renan Vilas
Trilha Sonora: Beto Chedid
Videografia: Ricardo Vivian
Audiodescrição: Mil Palavras Acessibilidade Cultural
Produtores Executivos: Beatriz Sandoval e Rodrigo Teixeira
Fotos de divulgação: Julio Appel
Design e identidade visual: Vergilio Lopes
Assessoria de Imprensa: SM Abreu Comunicação e Gestão Cultural
Financiamento: Ação cultural realizada com recursos da Lei Aldir Blanc através do Município de Porto Alegre.
O Espetáculo
A temporada de estreia da nova montagem da Cia. Reverbo – contemplada no edital de ocupação de teatros municipais de Porto Alegre – tensiona os limites da percepção em um mundo cada vez mais saturado de imagens, aparências e desinformação, fazendo uso da audiodescrição como potente recurso dramatúrgico. Com direção e dramaturgia de Clóvis Massa, e tendo Letícia Schwartz, Rafael Braz e Rodrigo Teixeira em cena, o espetáculo propõe uma experiência cênica que nos desafia a confrontar tudo aquilo que, por conveniência, escolhemos não enxergar. O ponto cego das coisas é tensionado, levando o público a questionar suas próprias percepções.
A Estética: Cenário, Luz e Figurino
No palco, o principal elemento cênico é uma cabine estilizada, uma estrutura modular criada pelo cenógrafo Rodrigo Shalako, que estabelece o espaço de isolamento característico da audiodescrição. O desdobramento dos módulos permite que assumam, também, múltiplas funções dramáticas ao evocar diversos ambientes distintos, retornando, sempre que necessário, à configuração de cabine, "cérebro" do espetáculo, o espaço onde a imagem se transforma em palavra.
Essa perspectiva se aplica igualmente à iluminação criada por Bathista Freire, que não apenas dá a ver, mas lida com o ofuscamento e a penumbra, simulando a fisiologia da visão (e a falta dela) no brilho que cega, na sombra que esconde e no vulto que resta.
O figurino de Thais Diedrich dialoga diretamente com o cenário e a luz: como o elenco se reveza continuamente entre narrar e atuar, a base dos trajes é unificada, confeccionada em alfaiataria contemporânea desconstruída. Os tecidos texturizados carregam para a cena um forte potencial tátil. A caracterização de diferentes personagens e situações ocorre por meio de acessórios-signo e sobreposições pontuais, como óculos escuros, bengalas ou mesmo objetos que remetem ao universo tecnológico que manipula a percepção das pessoas.
A Dramaturgia e a Pesquisa
A produção lida com a abordagem de Dramaturgia de Testemunho investigada pelo diretor Clóvis Massa, por meio de pesquisa de campo iniciada na produção anterior do grupo, Raiz Amarga – Por que esta noite é diferente de todas as outras? – premiada em cinco categorias no Prêmio Açorianos de Teatro Adulto em 2024.
O dramaturgismo foi fundamental no processo do AUTODescrição. Segundo Massa, “só chegamos aonde chegamos porque o grupo é formado por integrantes que trabalham continuamente com audiodescrição e têm algum tipo de vivência com pessoas com deficiência visual.” As pessoas entrevistadas contaram suas histórias pessoais e profissionais, fornecendo um espectro de possibilidades temáticas. “Mas a peça não transpõe de maneira direta as situações contadas por eles. Como dramaturgo, optei por fundir narrativas para criar personagens. Na peça há tanto testemunho como ficção.” Esse procedimento garante que as histórias possam ser universais, pois o que está em questão não é a visão ou sua falta, e sim o ponto cego das coisas, o que qualquer um de nós não consegue ou não quer ver.
Segundo Letícia Schwartz, “não são os personagens, necessariamente, que se autodescrevem, é o próprio espetáculo que se autodescreve. A audiodescrição não tem a pretensão de ser efetivamente um recurso de acessibilidade, ainda que esse tenha sido o ponto de partida.”
A Trajetória do Grupo
O projeto consolida a parceria artística entre Clóvis Massa, professor titular do Departamento de Arte Dramática e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS, com os integrantes da Mil Palavras Acessibilidade Cultural. A parceria com a atriz e audiodescritora Letícia Schwartz teve início em 2020, com o audiodrama Desmemórias, criação sonora que utilizou trechos da entrevista concedida em 1997 pela avó da atriz à USC Shoah Foundation, construindo uma narrativa sobre trauma e testemunho.
Em 2023, a colaboração deu origem ao espetáculo teatral Raiz Amarga – Por que esta noite é diferente de todas as outras?, em que se fundiram memórias autobiográficas de Letícia ao ritual do Pessach judaico. Na encenação imersiva, que contou com a atriz Arlete Cunha, o espetáculo foi amplamente reconhecido pela crítica, sendo vencedor em 2023 de cinco categorias do Prêmio Açorianos de Teatro (Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Atriz para Letícia Schwartz, Melhor Dramaturgia e Melhor Cenografia).
Em 2026, AUTODescrição – Tudo o que eu não vejo aprofunda o diálogo entre criação cênica, testemunho e memória, ao reafirmar o compromisso do grupo, denominado agora oficialmente Cia. Reverbo.
Acessibilidade
A apresentação do dia 08 de agosto de 2026 oferece o recurso de audiodescrição através da Mil Palavras Acessibilidade Cultural.
Projeto selecionado pelo Edital de Ocupação dos Teatros Municipais de Porto Alegre para o primeiro semestre de 2026, contemplado no Teatro de Câmara Túlio Piva.
Realizado com financiamento do Edital de Chamamento Público nº 005/2024 – PNAB POA – Fomento 2024, por meio do Processo nº 24.0.000125166-20.
SERVIÇO:
Onde: Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575 – Cidade Baixa – Porto Alegre/RS)
Quando: De 07 a 16 de agosto
Horários das apresentações:
07/08 às 20h
08/08 às 20h (com Audiodescrição)
09/08 às 18h
14/08 às 20h
15/08 às 20h
16/08 às 18h
Abertura da Casa: 30 minutos antes de cada apresentação.
Classificação: 12 anos. Menores de 15 anos acompanhados por responsável legal.
Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.