Assim como o próprio butoh em sua essência, “Mares e Nuvens Flutuantes”, novo espetáculo da dupla Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama, é banhado por imagens que evocam a beleza, a complexidade e a (in)finitude da vida. O cerne do mais recente trabalho dos bailarinos está no butoh-fu, coreografia da linguagem criada por Tatsumi Hijikata para o mestre Yoshito Ohno, que também recebeu dele três peças mais tarde intituladas de “Hijikata Sansho” (“Três Capítulos de Hijikata”).
A partir de um pedido da própria família Ohno, Ana e Nishiyama agora reimaginam o butoh-fu, cujas coreografias foram dançadas por Yoshito sensei pelo resto de sua vida. Em seu novo trabalho, eles dançam com as sombras que permeiam os nossos espaços e encaram a vida costas a costas com a morte, como faces de uma mesma moeda. Minimalista em cores e movimentos, o espetáculo celebra imagens e memórias com um olhar impressionista, enevoado. No intenso sentir, encontram o sutil pisar, vêem as horas escorrendo em comungo com os mortos e encontram o sol nascendo profundo e turbulento.
O butoh-fu de Tatsumi Hijikata para Yoshito Ohno dá origem às imagens que compuseram a obra “The Dead Sea”, nascida após uma viagem de Kazuo Ohno e Yoshito sensei à região do Mar Morto em 1983. A dança que emerge evoca a vida presente em meio a um cenário árido e inóspito. Outras imagens marcantes se incorporam a ele, como as águas-vivas que Kazuo Ohno, criador do butoh ao lado de Tatsumi Hijikata, via acompanharem os corpos de seus companheiros de guerra jogados ao mar; e “Water Lilies”, primeiro trabalho coreografado por Yoshito Ohno após a morte de Hijikata, evocando a obra do pintor francês Claude Monet.
Com “Mares e Nuvens Flutuantes”, Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama traduzem em cena essas e outras imagens que se interseccionam e se fundem através da dança. Há diálogos muito próximos da nossa realidade como brasileiros – impossível não relacionar, por exemplo, os corpos levados pela água com as recentes enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul – e, acima de tudo, a beleza possível que Yoshito Ohno dizia existir até mesmo nas mais improváveis das circunstâncias: “a flor que nasce da pedra”. A direção é de Etsuko Ohno, com assistência de Mikako Ono e Keiko Ohno.
Duração: 50min
