Aquecimento para o 33º Poa em Cena: Reside Alegre movimenta bairro Cidade Baixa com intervenções gratuitas
Ações artísticas criadas por artistas do Brasil e da Argentina a partir da vivência com moradores da rua Alberto Torres serão realizadas nos dias 5 e 6 de setembro, sábado e domingo, das 17h30 às 22h. As intervenções são gratuitas e abertas ao público, dando a largada para o Festival Internacional de Artes Cênicas, que começa em 10 de setembro.
Uma conexão direta da arte com a cidade e seus habitantes. Assim pode ser descrito o Reside Alegre, projeto que dá a largada para as atividades do 33º Porto Alegre em Cena. A residência artística, que integra o Festival Internacional de Artes Cênicas pelo segundo ano consecutivo, desta vez terá atividades no bairro Cidade Baixa. Nos dias 5 e 6 de setembro, sábado e domingo, das 17h30 às 22h, serão realizadas intervenções artísticas na rua Alberto Torres. Diversas ações, com duração entre 20 e 30 minutos, se repetirão três vezes por dia e acontecerão simultaneamente dentro das casas dos moradores, na Creche São Francisco de Assis, no restaurante KiloGrama e ao ar livre, nas calçadas. Toda programação será gratuita e, nos dois dias, as senhas de acesso serão distribuídas a partir das 16h30 na bilheteria localizada na sede do Reside (Rua Alberto Torres, 27).
Trabalho minucioso
Para conhecer melhor a comunidade em que estariam inseridos em 2026, os integrantes do Reside Alegre vieram a Porto Alegre em maio e depois retornaram no final de julho para uma residência artística com os vizinhos, artistas da cidade e estudantes do Departamento de Arte Dramática (DAD) da UFRGS. A equipe é formada pela diretora e coordenadora argentina Monina Bonelli, a curadora e coordenadora pernambucana Paula de Renor, o curador e diretor Celso Curi e o coordenador Wesley Kawaai, ambos de São Paulo. O grupo ainda conta com direção de produção artística de Sandra Possani e a participação de 15 alunos do DAD. No Reside Alegre, há sempre uma figura essencial que é chamada de vizinha-embaixadora, fundamental para a confluência na relação com a comunidade. Neste ano, a diretora, iluminadora e produtora Nara Lucia Maia ocupa esse cargo.
O objetivo desse contato com os moradores foi colecionar histórias de infância, velhice, superação, memórias e sonhos. A partir disso, foram construídas ações artísticas envolvendo vizinhos, artistas ou não, que serão celebrados durante o fim de semana.
Programação variada
Nos dois dias de evento, o público poderá conferir ações imersivas como áudio guia, narrativas desdobradas em diversos formatos, além de espetáculos que compõem esta vivência única. A ideia é mostrar a pluralidade de ações que podem surgir do vínculo artístico com uma comunidade específica. “Uma das características interessantes da Rua Alberto Torres é ter muitos artistas entre seus moradores”, comenta Paula.
Entre os destaques, está uma atividade que homenageia um desses artistas-moradores, o cartunista Santiago (Neltair Abreu). A intervenção terá algumas de suas criações transformadas em totens e ocupando a rua, como se os personagens de sua obra também fossem vizinhos e participassem do projeto.
Restaurante Kilograma vira palco
Por ser uma rua calma, com poucos estabelecimentos comerciais, a Alberto Torres é considerada pelos moradores uma espécie de “oásis de tranquilidade” em meio à agitação do bairro. Um único restaurante acaba sendo o ponto de encontro na hora do almoço há 30 anos, na esquina com a Rua Lima e Silva. Pela importância para a comunidade local, o restaurante foi escolhido como palco para uma das atividades do Reside Alegre, com a apresentação de Kilodrama – O Nosso Amor com Feijão, criação de Nelson Diniz, com atuação e dublagem de Maria Bufrem e Gabriela Iablonovski.
Creche histórica
Outro destaque da rua é a Creche São Francisco de Assis, que existe há mais de 90 anos e é a primeira do Rio Grande do Sul. O prédio histórico será sede de três ações. Uma delas é a apresentação do espetáculo Vozes e Gerações, com um coral formado por estudantes da creche e cantores dos grupos AUÊ e Canta!, com direção de Madalena Rasslan, e teclado e preparação vocal de Simone Rasslan. Haverá ainda uma caminhada pelo jardim da creche, intitulada Trilha de Afeto, com criação em áudio de Jaques Machado e depoimento de Rodrigo Dias; além da experiência sensorial Infância Adormecida, assinada pelo bailarino e coreógrafo Paulo Guimarães.
Moradores transformados em protagonistas
A programação também inclui retratos dos vizinhos, assinados pela fotógrafa Justine Maia, que serão projetados na rua; e um áudio assinado pelo diretor Fernando Kike Barbosa contando a história de Antônio, o guardião dos carros e da rua. Outros destaques são uma dramaturgia de Anna Chepp e direção de Silvana Rodrigues para mostrar a trajetória de Eva dos Santos, professora de inglês que se apaixonou por viagens; além do espetáculo-happening Ariadne, com criação de Paulina Nólibos, que revisita diferentes versões sobre o destino do mito Ariadne e o das mulheres de sua família.
Retorno da equipe à cidade
Celso Curi destaca que o grupo que forma o Reside Alegre já participou de residências artísticas semelhantes em Recife e Buenos Aires. Porém, é a primeira vez que retornam para outra rua de uma mesma cidade. No ano passado, a ação foi realizada no Centro Histórico de Porto Alegre. “Precisamos aprender a trabalhar com cada comunidade, é sempre algo novo. E, dessa vez, corremos mais riscos na curadoria, apostando na diversidade, inclusive no que diz respeito à intergeracionalidade e novos nomes na dramaturgia”, explica Curi. Paula complementa que existe uma metodologia de trabalho, mas não existe uma fórmula pronta.
Boca de Rua
A Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação terá um espaço para divulgar o jornal Boca de Rua, que circula há 26 anos na capital gaúcha, sendo o único no mundo feito, vendido e gerido por pessoas com trajetória de rua. Também haverá venda de livros e outras ações durante os dias de atividades do Reside Alegre.
Uma rua com memória preservada
Com 160 metros de extensão, a rua Alberto Torres é um convite para relembrar a memória arquitetônica de Porto Alegre. Criada oficialmente no começo dos anos 1920, ainda preserva construções representativas da evolução urbana da Cidade Baixa, como sobrados geminados erguidos em 1935, além de edificações residenciais de meados do século 20. Um dos debates entre os moradores é o retorno ao nome original da rua. “A proposta de retomar o nome Travessa Harmonia é uma forma de resistência à gentrificação que começa a chegar ao bairro”, ressalta Monina.
Ações antecipam a agenda de espetáculos do Poa Em Cena
Após as intervenções do Reside Alegre, a 33ª edição do Porto Alegre em Cena terá sequência com uma intensa agenda de espetáculos locais, nacionais e internacionais, movimentando 13 palcos da capital gaúcha entre os dias 10 a 20 de setembro. Serão mais de 70 apresentações de teatro, circo, dança e música que vêm da Argentina, do Canadá e de diferentes Estados brasileiros, protagonizadas por nomes como Camila Pitanga, Bete Coelho, Taís Araújo, Grace Gianoukas, Danielle Winits, Sandra Pêra, Laila Garin, Juliana Linhares, Arthur Nestrovski, Celsim, Dolores Solá, Liliana Herrero e Carlos Villalba.
Com foco no Brasil, a mostra deste ano atravessa cenários que vão do sertão ao pampa para refletir sobre as inquietações, contradições e transformações do nosso país. As produções abordam temas como envelhecimento e etarismo, corpo, racismo, violência, maternidade, pertencimento, memória, desejo e solidão a partir de trabalhos inspirados na obra de importantes autores, como Ariano Suassuna, Caio Fernando Abreu e Guimarães Rosa. Os últimos ingressos estão à venda pelo site www.portoalegreemcena.com.br, com preços a partir de R$ 25.
Serviço
Reside Alegre, dentro da programação do 33º Porto Alegre em Cena
Dias 5 e 6 de setembro, sábado e domingo, das 17h30 às 22h
Rua Alberto Torres, no bairro Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
Entrada gratuita, mediante a retirada prévia de ingressos nos dias de evento, a partir das 16h30, na Sede do Reside Alegre (Rua Alberto Torres, 27)
Programação completa do Reside Alegre
Álbum dos Vizinhos, assinado pela fotógrafa Justine Maia: Os vizinhos foram fotografados nas portas ou nos interiores de suas casas, criando um importante documento afetivo e preservando a memória da rua. Essas imagens serão projetadas na rua.
Bailinho: A festividade da rua. Foram ouvidas histórias de que muitas casas realizavam pequenas festas em suas salas e pátios. Com: DJ Daison (dia 5) e DJ Alemão (dia 6).
Antônio, com criação de Fernando Kike Barbosa: Um áudio guia irá contar a história do guardião dos carros e da rua.
Kilodrama – O Nosso Amor com Feijão, com criação de Nelson Diniz, atuação e dublagem de Maria Bufrem e Gabriela Iablonovski: O restaurante Kilograma é o ponto de encontro da rua. Diariamente, reúne os habitantes da Alberto Torres. Para encontrar alguém da rua, basta passar por lá.
Harmonia Cabaré: Uma ação cênica divertida, inspirada nos antigos shows de talentos, que envolve moradores da rua, estudantes da UFRGS em residência artística, e artistas.
Caminhos de Santiago: Ação homenageando o cartunista Santiago (Neltair Abreu), reconhecido nacional e internacionalmente. Alguns de seus personagens ganharão forma de totens e passarão a ocupar a rua, como se os personagens de sua obra também fossem vizinhos e participassem do projeto.
As Viagens da Dinda, com criação de Anna Chepp e direção de Silvana Rodrigues: A história de Eva dos Santos, professora de inglês que se apaixonou por viagens, percorreu o mundo e deixou um belíssimo acervo de slides. Esse material será mostrado, compartilhando suas memórias e seu olhar sobre diferentes lugares.
Casa de Bonecas: Um convite para entrar no universo mágico das casas de bonecas. Em um jardim secreto, o olhar poético sobre casas, lares e gentrificação.
Encontrando Ariadne, com criação de Paulina Nólibos: A partir do mito de Ariadne, o espetáculo-happening revisita diferentes versões sobre seu destino e o das mulheres de sua família, revelando conflitos, violência de gênero e contradições dos relatos. Em uma antiga casa, o público percorre corredores e sacadas, descobrindo cenas que surgem como fragmentos de sonho ou pesadelo. Entre mito e presente, a obra convida a reconhecer nas mulheres da antiguidade os rostos e dilemas das mulheres contemporâneas.
Oráculo Feminista, com realização da Casa MEL – Arte, Cultura e Comunicação e do Instituto E Se Fosse Você?: Uma noite de biblioteca aberta para conhecer, descobrir e deixar-se provocar pelas ideias de mulheres que pensaram e seguem pensando outros mundos possíveis. Na Biblioteca Feminista Lélia Gonzalez, da Casa MEL, o público é convidado a explorar o acervo e participar do Oráculo Feminista, uma experiência lúdica para conhecer mulheres escritoras.
Ações na Creche São Francisco de Assis, assinadas por Madalena Rasslan, Simone Rasslan, Jaques Machado e Paulo Guimarães: A creche, que existe há mais de 90 anos e é a primeira do Rio Grande do Sul, ocupa um espaço fundamental na Alberto Torres. Seria impossível realizar o projeto sem envolver suas crianças, suas histórias e suas imagens. Dentro e diante da creche, serão criadas três ações: o espetáculo Vozes e Gerações, com um coral formado por crianças da creche, direção de Madalena Rasslan e teclado e preparação de Simone Rasslan; uma caminhada pelo jardim da creche, intitulada Trilha de Afeto, com criação e edição de áudio de Jaques Machado e depoimento de Rodrigo Dias; além da experiência sensorial Infância Adormecida, assinada por Paulo Guimarães.
Foto: Equipe responsável pela programação do Reside Alegre reúne artistas do Brasil e da Argentina. Crédito da foto: Miriã Possani
Ficha técnica do Reside Alegre
Idealização: Monina Bonelli
Criação: Monina Bonelli e Celso Curi
Curadoria: Monina Bonelli, Celso Curi e Paula de Renor
Coordenação do projeto: Paula de Renor e Wesley Kawaai
Vizinha embaixadora: Nara Lucia Maia
Produção artística: Sandra Possani
Coordenação técnica e produção: Fabio Cunha
Assistente de criação: Júlia Moreira