A filha da terra e o filho do dono, novo espetáculo do Uta Teatro, estreia dia 15 de agosto, no Galpão Floresta Cultural
A montagem, livremente inspirada em Barbosa Lessa, Petrúcio Amorim, Simões Lopes Neto e William Shakespeare, tem direção coletiva e nasce de um projeto de pesquisa do grupo UTA
O Grupo UTA vem forte em 2026. Conceituado, sólido, longevo, importante na cena cultural do Sul e do Brasil há mais de três décadas, estreia seu novo espetáculo em agosto. A filha da terra e o filho do dono investiga a história e as consequências da escravização no sul do Brasil, por meio de uma dramaturgia original. A montagem não parte de um texto teatral já existente, e sim, de um longo processo de pesquisa, improvisações e diálogo com narrativas das culturas populares e memórias de família, acentuando a identidade do UTA Teatro, que cresce ao mergulhar na história não contada do RS. Música, teatro, dança e performance se entrelaçam nesta narrativa, que questiona as relações entre poder, herança, racismo e pertencimento à terra em um sul imaginário. A peça estreia dia 15 de agosto, no Galpão Floresta Cultural e terá temporada aos sábados e domingos até 30 de agosto, com entrada franca. Este projeto foi contemplado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre – Fumproarte.
Refletindo sobre o racismo estrutural a partir da história de uma família marcada pela desigualdade, A filha da terra e o filho do dono leva para a cena uma filha negra excluída da herança e um filho branco reconhecido como legítimo, e problematiza a permanência de ideias e práticas discriminatórias que atravessam a história brasileira. Metaforicamente chama a atenção para como o Brasil repartiu a terra e criou desigualdades sentidas até hoje. Contudo, mais do que revisitar o passado, o espetáculo convida o público a pensar como essas formas de exclusão continuam presentes na sociedade e a fortalecer o compromisso com a luta antirracista.
Fiel à trajetória da UTA Teatro, a montagem articula rigor investigativo e liberdade criativa. O espetáculo resulta de um processo autoral desenvolvido ao longo de vários meses, no qual a pesquisa artística antecede a escrita dramatúrgica. A proposta reafirma o teatro como espaço de encontro, reflexão e transformação social, propondo um diálogo com diferentes públicos sobre memória, justiça e igualdade. “O mais difícil e o mais emocionante pra mim nesse processo, tem sido descobrir como apresentar as dores e as alegrias humanas de um sul do Brasil imaginário e ao mesmo tempo conectado com nossas lembranças. Trata-se de um percurso de reconhecimento das especificidades da branquitude e de como ela nos constitui como povo”, afirma o ator Gilberto Icle.
Um trio de artistas – Celina Alcântara, Gilberto Icle e Nina Fola – toma a cena para contar a história de um velho homem branco, um estancieiro que vive no sul do mundo e tem dúvida de para quem deixará suas riquezas. De um lado, o filho branco preguiçoso, mas legítimo, e, de outro, a filha negra, fruto de um relacionamento com uma agregada. Ao agir em razão do racismo e da misoginia, deixa tudo ao filho que, por fim, acaba lhe expulsando de casa. Cego e vagando pelo Pampa, reencontra a filha. O espetáculo é livremente inspirado em Barbosa Lessa, Petrúcio Amorim, Simões Lopes Neto e William Shakespeare, bem como nas tradições orais e nas memórias das famílias dos artistas criadores. A história e seus personagens são apresentados e criticados pela figura de um boi das brincadeiras populares, símbolo das charqueadas – atividade econômica de grande relevância para o Rio Grande do Sul durante o período colonial – que funciona como testemunha e comentador crítico, recuperando imagens paradoxais de tristeza, violência, trabalho, resistência e alegria que caracterizam as histórias do sul do Brasil.
“Sabemos que o sul do Brasil alongou a escravização por motivos econômicos, mas isso não é tudo. Quando a gente se dá conta de tantas atrocidades que o mundo branco normalizou – e ainda normaliza – precisa recontar a história. Essa criação tem me ajudado a não me enganar e a entender que a arte pode ser um instrumento de revisão das desigualdades humanas” reflete Gisela Habeyche, que dirige o espetáculo coletivamente com Ciça Reckziegel, Dedy Ricardo, Shirley Rosário e Thiago Pirajira.
Dedy Ricardo afirma que as personagens que dão nome ao novo espetáculo do UTA, são figuras que remetem, em parte, à gênese do Rio Grande do Sul. Seus intérpretes, Celina Alcântara e Gilberto Icle, integrantes da UTA desde 1992, nos levam de volta aos primórdios do coletivo, que está prestes a completar 35 anos de trabalho ininterrupto, em Porto Alegre. “Trata-se de um exercício de Sankofa, como diz a sabedoria ancestral africana. Voltar e pegar o que nos importa. E, neste retorno, convocar outras presenças, olhares, ritmos e vozes, como a de Nina Fola, que traz a força de suas vivências como preciosa contribuição para a cena”, afirma Dedy. O UTA traz, nesta montagem, parcerias fundamentais, como Álvaro Rosacosta, Simone Rasslan e Luciana Prass, com seu conhecimento e musicalidade; volta a vestir as cores e as texturas de Mari Falcão, Gugu Lacerda, Alex Limberger e Gustavo Dienstman, parceiros fundamentais nessa caminhada.
“Compartilhar a direção deste espetáculo com as pessoas que ajudaram a construir a minha própria história, que está intrinsecamente vinculada à história deste grupo – que é também parte da minha família – tem sido uma experiência desafiadora que alia respeito, paixão, sintonia, sensibilidade e muita admiração. É mais uma oportunidade de contar nossas histórias juntos, porque assim curamos nossas feridas e alimentamos nossas esperanças, completa Dedy Ricardo.
Foto: Carlos Pereira
Ficha técnica
Inspirado em: Barbosa Lessa, Bumba Meu Boi, Memórias de família, Petrúcio Amorim, Simões Lopes Neto, Tradições orais, William Shakespeare
Elenco: Celina Alcântara, Gilberto Icle e Nina Fola
Direção: Ciça Reckziegel, Dedy Ricardo, Gisela Habeyche, Shirley Rosário e Thiago Pirajira
Composições musicais: Álvaro RosaCosta, Simone Rasslan e UTA Teatro
Arranjos: Luciana Prass, Nina Fola e Simone Rasslan
Preparação vocal: Simone Rasslan
Preparação para acordeão: Matheus Kleber
Preparação musical: Luciana Prass
Figurinos: Luiz Augusto Lacerda e Mari Falcão
Costuras: Mari Falcão
Máscaras e adereços: Alex Limberger e Gustavo Dienstmann
Confecção Maçaquaias: Mestres Rainha Ginga Francisca Dias e Jonatan Dias de Souza
Confecção tambor Ilú: Pingo Borel
Confecção tranças de pano e Abayomis: Caroline Falero
Design de iluminação: Bathista Freire
Ilustrações: Mitti Mendonça
Design gráfico: Aline Gonçalves
Assessoria de imprensa: Bebê Baumgarten
Redes sociais: Daniele Rodrigues
Produção: Juliano Barros e UTA Teatro
Agradecimentos: Cíntia De Los Santos; , Demétrio Xavier; Departamento de Arte Dramática-UFRGS; Galpão Floresta Cultural; Pingo Borel; Rainha Ginga Francisca Dias, Rei do Congo João Batista Rodrigues, Chefe Faustino Antônio e Grupo Maçambique de Osório; Thyago Cunha; Zona Cultural
A FILHA DA TERRA E O FILHO DO DONO – um espetáculo do UTA Teatro
Estreia dia 15 de agosto, às 20h
Temporada aos sábados e domingos, até 30 de agosto, sempre às 20h
Galpão Floresta Cultural – Rua Conselheiro Travassos, 541
Entrada franca, com retirada de senhas 1h antes de cada apresentação
Redes sociais:
https://www.instagram.com/utateatro
Projeto contemplado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre – Fumproarte