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  • Arte e Teatro

DÍA DE YERRA – Um Certo Édipo

03 a 04 de outubro de 2026

Gratuito

Organizado por

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Atualizado em 24/09/2026

Sobre o evento

Día de Yerra – Um Certo Édipo, solo teatral idealizado por Jöão Monteiro, estreia no Teatro Oficina Olga Reverbel dias 3 e 4 de outubro

O espetáculo nasce do encontro entre uma investigação pessoal, uma pesquisa psicanalítica e a relação do artista com sua própria identidade gaúcha

Depois de anos vivendo fora do Rio Grande do Sul, especialmente entre Rio de Janeiro e São Paulo, Jöão Monteiro retorna ao estado e estabelece residência em Porto Alegre. É nesse retorno que uma pergunta começa a ganhar força: o que significa voltar para uma terra que, de alguma maneira, já havia decidido quem você deveria ser antes mesmo de você saber quem era?

Gaúcho, criado em uma região atravessada pela cultura de fronteira e pelas tradições do Pampa, na cidade de Jaguarão, teve na infância e na juventude contato diário com a cultura binacional. Com o gaúcho que surge dessa margem, Jöão começa a aproximar sua experiência como homem gay daquilo que vinha estudando na psicanálise. Dessas pesquisas e estudos, surge a necessidade de revisitar o complexo de Édipo não apenas como estrutura psicanalítica, mas como uma tecnologia cultural de produção de família, gênero, desejo, masculinidade e pertencimento frente ao tradicionalismo. Esse é o ponto de partida para a construção de Día de Yerra – Um Certo Édipo, que estreia 3 e 4 de outubro no Teatro Oficina Olga Reverbel, seguindo depois para pequena temporada no Teatro Carlos Carvalho, dias 8 e 9.

Pensado, escrito, protagonizado e dirigido por esse inquieto artista, a montagem parte de três referências centrais: “Édipo Rei”, de Sófocles; “O Anti-Édipo”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari; e “Édipo Gay”, do psicanalista argentino Jorge Reitter. A dramaturgia coloca essas referências em atrito com o imaginário do gaúcho, da tradição e da masculinidade construída no Pampa. É desse encontro que surge a yerra, nome dado à prática tradicional de reunir o gado para sua marcação e outros procedimentos ligados à identificação e ao manejo dos animais na região do Prata, especialmente no Uruguai e Argentina.

No espetáculo, essa imagem deixa de pertencer somente ao gado e passa para o corpo humano. Antes mesmo de nascer – e certamente antes de compreender seu próprio desejo, um homem já encontra uma série de expectativas à sua espera. Há uma família imaginada, uma masculinidade prevista, comportamentos, afetos e desejos permitidos. Há uma tradição dizendo o que um homem deve ser. Assim como o animal recebe uma marca que determina pertencimento e propriedade, o corpo também é marcado. É nesse ponto que Día de Yerra estabelece seu paralelo entre a marcação do gado e a formação do sujeito dissidente.

O que acontece quando o desejo de um homem não cabe na herança que lhe foi destinada? “A investigação passa também por uma crítica à maneira como determinadas leituras psicanalíticas historicamente organizaram o desejo a partir de uma estrutura heteronormativa. O espetáculo não pretende negar Freud ou simplesmente responder à psicanálise, mas entrar em confronto com ela: olhar para o Édipo a partir do corpo que ficou do lado de fora da família que o próprio Édipo ajudou a imaginar” reflete Jöão Monteiro.

Se algumas formulações clássicas tentaram explicar por que um homem homossexual não deseja uma mulher, Día de Yerra desloca a pergunta: que estruturas sociais, familiares e culturais trabalham permanentemente para devolver esse homem ao armário, à norma e ao destino que haviam preparado para ele? No centro do espetáculo está um homem gaúcho. Ele carrega consigo uma herança que não escolheu, mas da qual tampouco consegue simplesmente se desfazer. O cavalo, o gado, a terra, a família, o pai, a mãe, a masculinidade, o trabalho, a tradição, a violência e o pertencimento fazem parte de sua formação. O espetáculo não parte de uma negação do gauchismo, pelo contrário, parte do reconhecimento de que essa tradição também constitui o artista. E também busca trazer luz para a existência desses corpos dentro da tradição, pois há um apagamento histórico acontecendo.

Embora atravesse questões que pertencem à trajetória de Jöão Monteiro, este não é espetáculo autobiográfico. Aqui, a tradição não aparece como inimiga, ela é memória, afeto, linguagem e pertencimento, mas também pode ser cerca. A criação conta com orientação cênica de Renato Del Campão e dramaturgismo de Anna Chepp. Valéria Barcellos participa do processo como parceira nas investigações relacionadas a gênero, dissidência, corpo e representação, contribuindo para o aprofundamento dessas questões dentro da construção artística. Rafael Erê Guarani integra o projeto como produtor associado e parceiro do processo criativo, participando também da construção musical/trilha do espetáculo.

Jöão Monteiro é ator, diretor, dramaturgo, roteirista, jornalista e produtor cultural. Formado pelo Teatro Escola de Pelotas, integrou o Grupo Nós do Morro, no Rio de Janeiro, e a última turma de formação de Antunes Filho no Centro de Pesquisa Teatral, em São Paulo, participando do derradeiro processo de Prêt-à-Porter desenvolvido sob acompanhamento do diretor. Trabalhou com artistas e grupos como Bia Lessa e Grupo Galpão e integrou Cartas ao Mundo, no Sesc Avenida Paulista, além de duas montagens da ópera O Amor das Três Laranjas, sob direção de Ulisses Carlos Vasconcelos. No Rio Grande do Sul, desenvolve projetos em teatro, música e audiovisual atravessados por questões de identidade, território e dissidência. É roteirista e diretor do curta-metragem Mãe, protagonizado por Valéria Barcellos, e idealizador e diretor artístico de projetos musicais que tensionam e ampliam as representações do imaginário gaúcho. Em Día de Yerra – Um Certo Édipo, transforma essa trajetória de investigação em matéria autobiográfica e cênica, colocando seu próprio corpo e sua relação com a masculinidade, o desejo e a tradição no centro do trabalho.

Ficha técnica

Atuação e direção: Jöão Monteiro

Texto e dramaturgia: Jöão Monteiro

Dramaturgismo: Anna Laura Chepp

Orientação cênica: Renato del Campão

Direção de movimentos: Emily Borghetti

Música tema: Clarissa Ferreira

Figurino, cenografia e adereços: Lorena Fonseca

Desenho de luz: Eduardo Kraemer

Desenho de som e paisagem sonora: Ricardo Diesel

Técnico de içamento: Gabriel Campos

Cenotécnico: Paulo Ricardo Pereira

Consultoria de gênero e dissidências: Valéria Barcellos

Identidade visual: Andy Matte

Fotos: Edson Filho

Assessoria de imprensa: Bebê Baumgarten

Produtor associado: Rafael Erê Guarani

Assistente de Produção: Cacau Marzulo

Produção executiva: JM Produções

DÍA DE YERRA – Um Certo Édipo

Solo de Jöão Monteiro

Dias 3 e 4 de outubro, às 19h

Teatro Oficina Olga Reverbel – Multipalco Eva Sopher – Rua Riachuelo 1089

Entrada franca

Dias 8 e 9 de outubro, às 20h

Teatro Carlos Carvalho – CCMQ – Rua dos Andradas, 736

Entrada franca

Redes:

https://www.joaomonteiroproducoes.com.br

https://www.instagram.com/joaofmonteirooficial

https://www.instagram.com/diadeyerra

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