Milombaião, álbum de Rafael Erê Guarani, terá lançamento dia 28 de julho no Espaço 373
No show de lançamento, o compositor estará acompanhado por Maryanne Francescon na gaita, Zelito Ramos no baixo, e Bruno Coelho na percussão
Em Milombaião, o futuro não é um amanhã que nos arranca da terra. Como advertiu Ailton Krenak, não se pode parar o mundo para descer dele. Por isso, o palco de Rafael Erê Guarani é uma constelação rizomática, em que as botas de garrão pisam o mesmo chão sagrado onde a sanfona nordestina respira com o ritmo da gaita-ponto, e o plástico fluorescente se entrelaça às penas como uma nova pele ritual. Não há separação entre o couro do sul e o algodão do nordeste — há, sim, a cosmologia do possível, onde a diversidade é o próprio motor do baile e o indígena não está no passado, mas vestindo óculos escuros para enxergar um amanhã que já é agora.
O álbum e o projeto como um todo, tem o objetivo de falar sobre a música regional brasileira, especificamente do sul e do nordeste do país, promovendo intercâmbio artístico, formação de público e valorização das tradições populares. Pensando que os extremos tendem a se aproximar, a gaita, ou sanfona, entra como ponto chave nesse encontro rítmico. A pesquisa do artista evidencia semelhanças rítmicas, poéticas e históricas entre o Sul, na figura do gaúcho, assim como o Nordeste, na figura do vaqueiro, com ênfase nas influências indígenas presentes em ambas as culturas, por meio da análise e história da gaita. Com financiamento do PNAB 2024, o projeto oferecerá, além dos shows de lançamento, o primeiro deles dia 28 de julho no Espaço 373, uma oficina formativa, baseada em pesquisa autoral que investiga a fusão entre a milonga e o baião.
Rafael Erê Guarani conta que a ideia do Milombaião vem sendo gestada há algum tempo, mas foi após a enchente que começou a tomar corpo, enquanto ouvia ritmos nordestinos e gaúchos e traçava semelhanças entre eles. “Percebi primeiro o óbvio: os ritmos, as sanfonas e gaitas. Depois fui experimentando as misturas como chamamé com guarânias, vanerão com piseiro, e fui fazendo as pontes que ligam norte e sul, entre elas, o homem do campo, que está próximo à natureza, que aqui no RS é o é o gaúcho, e no sertão é o sertanejo”. E para além das semelhanças, também as diferenças chamam a atenção, como o clima, o bioma, e como se movimentam nesses espaços, com seus costumes, sua música, seu andar”.
De origem indígena, Guarani, Rafael Erê vai mais fundo em suas pesquisas e imprime nesse novo trabalho sua ancestralidade. “Tanto o cara dos campos do sul como os sertanejos do nordeste, trazem as origens dos povos indígenas. Influências na língua, nos objetos, vestimentas, culinária e hábitos. E quero trazer isso pra minha arte, minha música, valorizar o indígena que segue na aldeia, lutando por demarcação de terras, e também o que vive na cidade, lutando por sua retomada, por sua valorização como cidadão”, reflete Erê. Trazer à tona essa identidade em sua arte, é afirmar a herança que temos dos povos originários. “Sou um indígena que vive em um espaço onde normalmente não há pessoas indígenas e por isso acredito ser tão importante trazer este corpo indígena pra dentro da sociedade, fincar minhas raízes, oferecer representatividade a quem se sente deslocado nesse universo”.
O álbum Milombaião contou com participações muito especiais de Valéria Barcellos, Silvero Pereira, Renato Borghetti, e o Cacique Cláudio Guarani. A direção criativa, idealização e design do projeto são de Jöão Monteiro, a frente da JM Produções, produtora que vem despontando como um dos nomes da nova geração da produção cultural gaúcha. Jöão assinou a concepção, direção e produção de projetos como o espetáculo-showMissioneira, protagonizado por Valéria Barcellos, além de obras cinematográficas premiadas e reconhecidas em festivais nacionais e internacionais. A direção musical fica a cargo de Clarissa Ferreira, etnomusicóloga e referência em pesquisa sobre tradicionalismo e contemporaneidade. E no show do dia 28 de julho, no Espaço 373, Rafael Erê Guarani, no violão, sobe ao palco com os músicos Maryanne Francescon na gaita, Zelito Ramos no baixo, e Bruno Coelho na percussão.
Sobre Rafael Erê Guarani
Rafael Erê Guarani é músico, cantor, compositor, ator e multiartista indígena Guarani. Desenvolve um trabalho que transita entre a ancestralidade dos povos originários e a música popular brasileira contemporânea, aproximando cantos, memórias e sonoridades tradicionais de ritmos como baião, xote, MPB e música regional brasileira. Como artista indígena urbano, sua trajetória é marcada pela valorização da cultura Guarani, pelo fortalecimento da identidade dos povos originários e pela criação de pontes entre tradição e contemporaneidade por meio da arte. Em Milombaião, seu primeiro EP autoral, Rafael apresenta um universo musical que celebra a terra, a espiritualidade, os afetos e a resistência cultural dos povos indígenas brasileiros.
Ficha técnica do disco:
1 – Milombaião
Composição: Rafael Erê
Voz: Rafa Erê e Silvero Pereira
Vocais: Clarissa Ferreira
Violão: Neuro Júnior
Acordeon: Renato Borghetti
Percussão: Bruno Coelho
2 – O Povo da Terra
Composição: Rafael Erê
Voz: Rafa Erê
Acordeon: Maryanne Francescon
Violão: Neuro Júnior
Percussão: Bruno Coelho
3 – Um Sopro Antigo
Composição: Rafael Erê
Voz: Rafael Erê e Valéria Barcellos
Acordeon: Maryanne Francescon
Violão: Neuro Júnior
Percussão: Bruno Coelho
Contrabaixo: Zelito Ramos
4 – Xote do Sul e do Sertão
Composição: Rafael Erê
Voz: Rafael Erê
Acordeon: Maryanne Francescon
Violão: Neuro Júnior
Percussão: Bruno Coelho
Contrabaixo: Zelito Ramos
5 – Entre Pampas e Sertões
Composição: Rafael Erê
Voz: Rafael Erê
Acordeon: Maryanne Francescon
Violão: Neuro Júnior
Produção musical: Clarissa Ferreira e Lucas Ramos (Estúdio Mochila)
Mixagem e masterização: Wagner Lagemann
MILOMBAIÃO – show de lançamento do álbum de Rafael Erê
Dia 28 de julho, às 21h (a casa abre às 19h)
Espaço 373 – R. Comendador Coruja, 373
Entrada franca
Redes:
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Este projeto foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura – Governo Federal, por meio da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul